Enquanto grandes cachês movimentam milhões, artistas e fornecedores locais cobram pagamentos e a população questiona as prioridades da gestão municipal
Meses depois da realização do Carnaval do Povo, os números relacionados aos pagamentos das atrações artísticas continuam chamando atenção e levantando questionamentos sobre planejamento financeiro e prioridades na administração pública de Parnamirim.
Documentos de empenho e liquidação consultados apontam despesas reconhecidas pela administração municipal, mas que, em determinados registros, ainda aparecem sem pagamento identificado. Levantamento publicado em agosto apontou mais de R$ 3,18 milhões em despesas liquidadas do Carnaval de 2025 ainda pendentes de quitação.
Entre os valores apontados no levantamento estão cachês de grandes atrações. Saia Rodada aparece com R$ 450 mil; Márcia Fellipe, R$ 400 mil; Banda Grafith, R$ 300 mil; Mara Pavanelly, R$ 250 mil; e Cavaleiros do Forró, R$ 150 mil. Somados, esses cinco contratos representam R$ 1,55 milhão referente ao Carnaval de 2026.
O cenário chama atenção principalmente quando colocado ao lado dos problemas enfrentados diariamente por quem depende dos serviços públicos municipais.
A festa passa, as contas ficam
O Blog Sem Amarras entende que eventos culturais fazem parte da vida de uma cidade e podem, inclusive, movimentar o comércio, gerar renda e fortalecer a economia local.
No Carnaval do Povo 2026, a própria administração municipal divulgou posteriormente um impacto econômico de R$ 168,1 milhões na economia local, segundo levantamento realizado em parceria com a Fecomércio RN. A estimativa também apontou cerca de 500 mil participantes durante os cinco dias de festa.
O problema, portanto, não está necessariamente na realização do Carnaval.
A questão que permanece é outra: como conciliar grandes investimentos em eventos com a obrigação de manter em dia os compromissos da administração pública?
Essa é uma pergunta que precisa ser respondida com transparência.
A conta chega depois da avenida
Durante quatro ou cinco dias, a cidade vive uma espécie de pausa na rotina. A avenida fica cheia, os trios elétricos passam, o comércio comemora e milhares de pessoas aproveitam a programação.
Mas, quando os trios deixam a avenida e as estruturas começam a ser desmontadas, permanecem as contas, os contratos e os compromissos assumidos pelo município.
É nesse momento que o cidadão volta a olhar para problemas que não desaparecem depois do Carnaval.
Falta de medicamentos, dificuldades em algumas unidades de saúde, problemas na educação e reclamações de fornecedores e trabalhadores fazem parte de uma realidade que precisa ser enfrentada pela gestão.
E os pequenos?
Outro ponto que merece atenção é a situação de artistas, trabalhadores da cultura e pequenos fornecedores de Parnamirim.
O Blog Sem Amarras tem acompanhado manifestações de integrantes da classe cultural que cobram pagamentos referentes a contratos de valores significativamente menores do que os grandes cachês contratados para eventos.
E aqui está uma das contradições que precisam ser discutidas.
Enquanto contratos de centenas de milhares de reais fazem parte da programação dos grandes eventos, trabalhadores locais relatam dificuldades para receber valores que, em alguns casos, não chegam a R$ 5 mil.
Não se trata de colocar um artista contra o outro.
Trata-se de discutir prioridade, planejamento e capacidade de pagamento.
Um ano depois, a pergunta continua
Quando um compromisso financeiro se aproxima de completar um ano sem pagamento, a questão deixa de ser apenas contábil.
Passa a ser uma questão de confiança.
Empresários, fornecedores, artistas e trabalhadores precisam saber quando receberão pelo serviço prestado. E a população também precisa saber como os recursos públicos estão sendo planejados e executados.
A pergunta que circula entre fornecedores e empresários de Parnamirim é simples: vale a pena continuar confiando e esperando?
A resposta não deve ser dada por discursos políticos, mas por números, transparência e pagamentos realizados.
Parnamirim precisa de planejamento
O Blog Sem Amarras não defende que Parnamirim deixe de realizar eventos culturais. Ao contrário: uma cidade viva precisa de cultura, lazer e grandes eventos.
Mas também precisa de medicamentos nos postos de saúde, alimentação adequada nas escolas, serviços públicos funcionando e fornecedores recebendo dentro dos prazos estabelecidos.
A gestão pública precisa conseguir fazer as duas coisas.
O Carnaval pode movimentar a economia e proporcionar lazer. Mas a administração municipal não pode permitir que a festa se transforme em uma conta que fica para depois.
A avenida passa.
Os trios vão embora.
Os foliões retornam para suas casas.
Mas as contas permanecem sobre a mesa.
E é justamente nesse momento que Parnamirim precisa saber se existe planejamento suficiente para honrar seus compromissos e manter os serviços essenciais funcionando.
O Blog do Obedis Damásio – Sem Amarras continuará acompanhando os registros oficiais e ouvindo fornecedores, trabalhadores e a população para mostrar não apenas a festa que acontece na avenida, mas também o que fica depois que ela termina.

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